26/08/2015

Paramédica

E descobrir que por anos foi um sonho.

E descobrir que por décadas foi ilusão

E descobrir assim, em minutos, que uma vida inteira fora destruída por uns segundos de prazer.

E perceber que a procura era vingança,

Que a conversa era desnecessária,

Que o toque era falso,

Que o brilho no olhar era tudo, menos afeto.

Perceber que era considerada um monstro,

Tratada como rainha,

E iludida como menina,

Tudo parte de um teatro, bem elaborado, ensaiado, especialmente para  derrubar, humilhar e destroçar.

Um encontro seria perfeito, mas o olhar nos olhos impediria tanta ira,

Talvez não fosse por comoção, mas por medo da reação, da agressão, da gritaria, dos choros, dos xingamentos...

Lendo e relendo, buscando entender, dizem que sofrer assim é inútil, mas eu busco saber...

Sabem foi tão estranho me ver ali, assim, tão insensível, tão indiferente, tão inútil, vulgar, realmente um monstro.

E pensar que através daqueles olhos eu me via tão lindamente apaixonada....

Eu vi a frase que mudou o meu pensar.. 

A ira fez-se pena, a pena virou remorso e o remorso virou entendimento.

E agora que nunca mais olharei aqueles olhos,

Que não poderei desculpar-me...

E palavras morrem em meu eu.

E nada mais tem cor..

E nenhum motivo é bom..

E eu só queria poder voltar atrás e apagar todas as nossas memórias...

Culpa minha  e só minha culpa.

Pecado meu, erro meu, uma vadia impura, uma qualquer....

E o li assim, verdadeiramente ressentido, chateado, por não poder perdoar-me, nem odiar-me.

Desejando que eu sentisse todo o mal que lhe fiz mesmo não intencional, mesmo não pensado. 

Mal.Apenas mal eu fiz...

Foi muito bom saber que todos aqueles anos eu fui apenas o mal em sua vida.

Foi bom porque hoje, eu acredito que foi preciso viver isso, sentir isso, acordar para isso..

Só me resta seguir, porque assim como você, sou covarde demais para lhe odiar por isso.

Vai doer muito, vai doer sempre, mas como disseste nunca será como foi sua vida inteira.. 

Nunca sentirei a mesma dor..

Afinal... Eu sou a causa da dor de ambos..

Como pode? Deveria ganhar um prêmio, porque eu sou a única que consegue destruir os outros e se destruir junto.

Seja como for, como no poema é dito, o mundo não pára para que você junte seus pedaços, ou segues em cacos ou estacione, sabendo que ninguém esperará.

E que não me esperem mesmo, porque nem sei se quero continuar....


"Terminou de ler a carta e abraçou o papel chorando. Estava ali a confissão covarde da menina que estava morta em seus braços agora. A paramédica chorando olhou-a melhor, era tão menina, tão frágil, tão ingênua, criança ainda, mal sabia que o mundo dá tantas voltas e que ela poderia ter sido tão feliz logo adiante. E temeu que nesse mundo tão covarde, ela fosse chamada várias e várias vezes, para tentar ressuscitar inutilmente, os corações partidos."


By Lilyth Luthor